quarta-feira, 25 de março de 2015

Portadores de deficiência avisam: querem ser tratados como iguais

Foto de pessoa com deficiência em frente ao computador

 Por Lucas Toyama

Kátya Hemelrijk, 30 anos, é formada em administração de empresas com ênfase em marketing pela PUC-SP, e em desing gráfico pela Faculdade Senac de Comunicação e Artes. Sem grandes oportunidades no mercado de trabalho ela, que nasceu com osteogênese imperfeita (falta de cálcio nos ossos), o que a obriga a andar de cadeira de rodas, abriu, com mais dois sócios, sua própria agência de comunicação e eventos. Depois de três anos, desfez a sociedade porque queria maior estabilidade.
Sentiu que o mercado estava mais aberto e se lançou na aventura da busca pelo emprego. Para sua surpresa, a jornada foi curta: 15 dias. “Sempre tive muita dificuldade para arranjar trabalho, mas dessa vez foi diferente”, afirma. Desde o final de agosto, ela trabalha como analista de comunicação da Natura.

No breve período em que ficou desempregada, Kátya participou ainda de mais dois processos seletivos. Em um deles, no qual concorria com mais cinco candidatos – todos sem nenhuma deficiência –, a administradora ficou em segundo lugar. Os porquês de ela ter sido preterida, no entanto, nunca foram explicados. Kátya acredita que foi discriminada. Segundo ela, durante todo o processo, pouco se perguntou sobre suas habilidades profissionais e muito foram os questionamentos em relação a seu dia-a-dia, como se locomovia, se conseguia dirigir. “As contratantes têm muito medo de contratar um deficiente; romper essa barreira do preconceito é um desafio”, afirma.

Outra que superou esse desafio foi Maria Rita de Paiva Alves Pinto, 24 anos, psicóloga formada e deficiente visual. Ela foi selecionada para trabalhar no atendimento ao cliente e consumidor do Laboratório Ache, que tem o Incluir RH, programa especial que, além de selecionar portadores de deficiência, também tem por finalidade encontrar meios para adaptar a estrutura da companhia para esses colaboradores.

Maria Rita nunca teve grandes problemas estruturais para desenvolver seu trabalho. Para ela, o nó principal foi e continua sendo a relação com as pessoas, que ainda não sabem como lidar com quem apresenta algum tipo de deficiência. Segundo a psicóloga, há, sim, funcionários que sabem receber as pessoas com deficiência, tratando-as de igual para igual. No entanto, afirma, ainda existem aqueles que acreditam que portador não é capaz, ignoram, são hostis ou preferem não interagir. O desafio para Maria Rita não é tecnológico e sim humano.

“O importante para toda pessoa com deficiência é saber se colocar e falar abertamente às outras do que realmente precisa, não adianta dar uma de super-herói ou de desprotegida”, explica Maria Rita, que aposta no diálogo como a melhor solução para a inclusão social.

Pablo Alzogaray, diretor de RH da companhia, acredita que para todos os colaboradores aceitarem aqueles com deficiência, eles precisam primeiro ter noção das limitações do outro e certeza de que elas não prejudicam em nada a capacidade profissional. Por isso, freqüentes reuniões são realizadas para aumentar a compreensão do colaborador sobre a deficiência. Até a empresa, que pretende alcançar sua cota em 2007, passa por contínuas reestruturações para se adaptar ainda mais à diversidade. Um dos passos em direção a esse objetivo é o mapeamento de cargos que podem ser ocupados por funcionários com deficiências e o acompanhamento do plano de carreira, estudado caso a caso.

A iniciativa é vista com empolgação pelos colaboradores, como o auxiliar administrativo Leonel Prado da Conceição, que tem imobilidade na perna esquerda devido a uma paralisia infantil, e cujo sonho é fazer carreira no Achè. Prado começou a trabalhar como contínuo office-boy e sua deficiência nunca foi obstáculo. Mas o preconceito sim. Ele se recorda que, em muitas seleções, mesmo apresentando todas as habilidades requisitadas, era rejeitado pelos contratantes, que nunca se justificavam de maneira plausível. Hoje, a única situação irritante para Prado é quando as pessoas não permitem que ele faça certos tipos de serviço, deduzindo que ele não tenha capacidade devido a sua limitação. “Existem muitas pessoas que usam a deficiência para se fazerem de vítimas e talvez essa seja uma das razões da sociedade demorar para aceitar que todas as pessoas, inclusive nós, somos capazes e precisamos ter as mesmas chances”, diz o auxiliar administrativo.

Fonte: Canal RH



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